Bob da Rage Sense: “Só paro de escrever e rimar quando me faltar a memória”

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A celebrar 20 anos de carreira com um aparatoso concerto este sábado no Cine Atlântico, é tido como uma figura incontornável da Hip-hop lusófono que não se queda pelas meias palavras, diz o que pensa e defende o que acredita.

Para quem não o conhece, o que é falar de Bob da Rage Sense?
Falar de Bob Da Rage Sense é falar de um MC que se mantém coerente desde o princípio da sua trajetória, é falar de um MC que inspirou e continua a inspirar Rappers e MCs da sua e da nova geração, é falar de um MC que faz parte de dois movimentos em simultâneo e que tem a sua história bem cimentada em ambos, é falar de evolução e que carrega nos seus álbuns a verdadeira definição de um MC.

Vinte anos de carreira e oito álbuns lançados, que balanço faz da sua trajectória?
O balanço é mais do que positivo, a qualidade presente nos meus álbuns no que concerne à sonoridade e escrita é evidente, os palcos que pisei, as críticas da média e do público que me ouve são claras, o balanço é positivo.

Como é que define o Bob do “Underground Konsciente” e o Bob do “Ordem Depois do Caos”?
(risos) A revista BLITZ fez-me uma crítica há uns anos na qual dizia que os meus álbuns eram um documento de evolução. No Underground Konsciente eu só queria rimar, não interessava pra mim naquela altura a estética, era o que eu chamo a fome de principiante, no Ordem Depois do Caos o Bob está muito mais polido, maduro e mais seguro.

 Sente que houve um amadurecimento ou podemos considerar uma mudança total?
Mais um amadurecimento do que uma mudança total.

Pelo último single que lançou já começamos a ter um vislumbre do seu próximo disco “As Aventuras de Robbie Wan Kenobie”… Que detalhes já pode adiantar sobre o sucessor do “Ordem Depois do Caos”?
Só posso adiantar que a faixa com o Laton é um clássico instantâneo, há 10 anos que não trabalhávamos juntos e quando nos juntamos outra vez foi simplesmente mágico. As aventuras de Robbie Wan Kenobie é um trabalho muito diferente dos que eu já fiz até agora, começando pelo facto de ter sido produzido por um só produtor, o magnífico SP DEVILLE e conta apenas com 3 participações ( Sir Scratch, Laton e o próprio SP DEVILLE). Resumindo, está um álbum introspectivo, dark e muito metafórico.

É um MC que vela estética musical, Com que tipo de rappers não trabalharia?
(Risos) é uma pergunta estranha… Não trabalharia com Rappers que não estão ao mesmo nível de percepção que o meu, nível de percepção digo em geral, musical, lírico e etc.

Desde o lançamento do álbum “Menos Pão Luz e Água” que tem se mostrado preocupado com a possível degradação do Rap, ainda é visível este cenário?
Mais do que nunca, o problema da degradação não só do Rap mas do Hip-hop em geral deve-se ao excesso de exposição mediática de pessoas que não têm talento. Eu nunca tive inveja, ciúmes ou algo do género do pessoal novo que tem talento, muito pelo contrário, associo-me à esses talentos e apoio mas infelizmente não é este o propósito e objectivo de quem possui os instrumentos de divulgação e massificação da cultura Hip-hop e música Rap, ou seja a indústria musical em conivência com as instituições culturais, se o lucro estiver abaixo da qualidade do artista então não conta e esses ditos “Rappers sem talento contribuem cada vez mais para o poder dos que os manipulam, aceitando os contratos ridículos e deixando-se subjugar por estes.

O que mais lhe preocupa, a questão do empobrecimento no que toca a composições… O imediatismo?
A falta de criatividade, a mesmice que dá asas à banalidade e à futilidade, a vontade imediata de aparecer e a falta de noção sobre a cultura.

O que a velha guarda tem feito para contornar esta realidade?
Eu não posso falar por todos, eu não me considero velha escola, eu estou no meio, entre a velha e a nova geração, continuo relevante, olho sempre para o futuro e trabalho para evoluir cada vez mais, não posso falar pelos que não se conseguem manter relevantes e criativos.

Como é a vossa relação com a dita “New School”?
Repito, só posso falar por mim, a minha relação é muito boa com aqueles que eu reconheço talento e criatividade, velho ou novo se não tiver talento não me interessa assim tanto, as pessoas que criam “guerrinhas” para separar o velho do novo ou vice versa não devem ter mais que fazer, eu não vou por aí, há Rappers maus na velha geração e Rappers maus na nova, não existe uma mais real ou mais fake, mas sim aqueles que fazem e com noção e aqueles que não fazem absoluta ideia do que fazem.

A sua vinda Angola é algo especialmente aguardado de acordo com a base de fãs que tem…  Quais as expectativas para o grande concerto em alusão aos seus 20 anos de carreira?
Sinceramente, isso só depende se os meus fãs aderirem em massa, porque a qualidade, a entrega e os pormenores artísticos que tenho preparado para o evento, serão sem dúvida inesquecíveis.

Além de estar no seu país de origem, há alguma razão especial para escolher o Atlântico e não um Altice Arena para o concerto?
Há 20 anos a minha primeira faixa passou na rádio em Luanda, eu vivia em Luanda nessa altura e os meus primeiros passos começaram em Luanda, faz todo o sentido do mundo celebrar esses 20 anos em Luanda apesar de ter feito a minha carreira toda em Lisboa, mas Luanda foi o ponto de partida.

Tem planos de actuar por aqui com mais frequência?
Eu Nunca recebi muitos convites para actuar em Luanda, por parte de ninguém, alguns Rappers Portugueses já actuaram mais vezes em Luanda do que eu, não por terem mais público do que eu, por outra razão qualquer que eu desconheço, mas sim, espero actuar em Luanda com mais frequência.

Está com 36 anos, até quando vai cantar Rap?
Não há idade para deixar de cantar seja que estilo for, só paro de escrever e rimar quando me faltar a memória. Em Londres tenho a privilégio de ver os meus heróis ao vivo e todos eles têm mais de 40 e tal anos, alguns com 50 e tal como o Big Daddy Kane, o KRS ONE, Masta Ace, Wu Tang, Nas e etc.. Esses têm mais energia do que muitos Rappers novos que eu já vi também (risos).

Consegue fazer um top 5 das suas melhores músicas?
(risos) não consigo.

Uma criação que se orgulhe particularmente?
Diários de Marcos Robert.

Um erro crasso que se tenha tornado uma lição valiosa?
Ter saído de Luanda definitivamente e não ter dado um último abraço à minha avó Domingas Sebastião.

Fontes inesgotáveis de inspiração?
Seres humanos.

Um expoente máximo de criatividade?
O povo negro no geral.

Para si há momentos ou lugares que potenciam a criação?
Antes havia, o meu quarto, sala vazia ou cozinha, de madrugada, quando havia silêncio total, hoje em dia não, crio no metro, no Bus, no avião, no comboio, em todo o lado.

Crio, logo… Insisto!

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