Jovens sul-africanos desiludidos: “Não fará qualquer diferença se eu for votar”

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Sul-africanos elegem esta quarta-feira um novo Parlamento. Combatentes da Liberdade Económica de Julius Malema querem conquistar eleitores mais jovens, mas muitos estão desiludidos com os políticos e nem pensam em votar.

O lixo acumula-se nas estradas esburacadas de Boipatong, na província de Gauteng. Neste bairro de lata, tal como em muitos outros na África do Sul, nada mudou nos últimos 25 anos, desde que o Congresso Nacional Africano (ANC) começou a governar o país. Os políticos parecem ter esquecido os bairros de lata.

A jovem sul-africana Mpho Totsetsi, de 25 anos, não tem ilusões. Por isso, vai simplesmente ignorar as eleições desta quarta-feira (08.05). “Não vou votar. Nem sequer me recenseei para as eleições. Não fará qualquer diferença se eu for ou não votar “, diz em entrevista à DW, lamentando que nos últimos anos nada tenha sido feito. Para a jovem estudante, as eleições são apenas um evento que “vai e vem”. “Nós vivemos da mesma maneira há muitos anos. Muitas vezes há falta de electricidade e água e os telhados de chapa continuam a existir, tal como os buracos nas nossas ruas”, lembra Mpho Totsetsi. O seu amigo Lucky Mofokeng concorda. “Eu só votei uma vez na vida e fiquei orgulhoso porque pensava que estava a fazer algo pelo meu país.” Mas entretanto nada mudou, lamenta o jovem.

Segundo as estatísticas oficiais, o desemprego atinge os 27% e mais de metade das pessoas vive na pobreza. Sem grande esperança num futuro melhor, muitos jovens sul-africanos não querem saber da política. Malema e os Combatentes da Liberdade Económica Na quarta-feira (08.05), Lucky Mofokeng não vai votar em nenhum partido político. Nem mesmo nos Combatentes da Liberdade Económica (EFF), partido radical liderado por Julius Malema que concentrou a sua campanha eleitoral nas massas pobres e na juventude do país.

A maioria dos eleitores registados que não vão votar tem entre 18 e 27 anos. Segundo vários estudos, 59% dos eleitores da EFF estão desempregados. O EFF é o terceiro maior partido da África do Sul. Surgiu como movimento de contestação ao ANC, o partido no poder, e entrou no Parlamento em 2014. O partido de Malema promete casas e empregos, melhorias na educação, uma força policial eficiente, mais dignidade para os sul-africanos negros e expropriações de terras sem compensações para os brancos. Não raras vezes, os slogans eleitorais do EFF são acompanhados de ataques contra brancos.

“Porque é que os brancos nos diferenciam?”, grita Juju, como lhe chamam os seus apoiantes, que lotaram o Estádio Orlando, no Soweto, no último comício de Julius Malema, vestidos a rigor com uma boina vermelha, a imagem de marca dos Combatentes da Liberdade Económica. “Não somos contra os brancos, apenas contra privilégios brancos e arrogância”, grita Malema para a plateia, convidando os jovens brancos a aderir ao partido. À juventude da África do Sul, também deixa um apelo: “Os vossos diplomas são melhores que dinheiro.

Queremos uma nação instruída, não milhões de pessoas que recebem assistência social.” Juventude sem esperança “Eles querem convencer jovens como nós, mas querem tudo à força”, diz Lucky Mofokeng Lucky, referindo-se à reforma propagada pelo EFF que não prevê compensações para os agricultores brancos.

O ANC, o partido no poder, também abraçou a mesma causa para tentar conquistar os eleitores desiludidos. “Os mais velhos levam as eleições a sério, mas nós só queremos paz e educação”, afirma o jovem Lucky Mofokeng. Para Mpho Totsetsi, os Combatentes da Liberdade Económica não passam de aspirantes a ANC. “Só nos dizem o que o ANC não oferece, mas não dizem o que podem realmente fazer por nós.”

A frustração da juventude é um grande desafio, afirma Verne Harris, que trabalha na Fundação Nelson Mandela. “Os jovens não acreditam que votar lhes dá a oportunidade de mudar as coisas. Eles estão alienados do processo político”, comenta em entrevista à DW. Os jovens veem até que ponto a política e as instituições foram corrompidas e, por isso, não é de admirar que tantos tenham “desistido” da África do Sul, diz Verne Harris. As promessas do EFF “A política do EFF responde às necessidades das pessoas nas comunidades, é uma poderosa ferramenta política”, destaca Verne Harris.

No entanto, a Aliança Democrática (DA), o segundo maior partido, também está a tentar conquistar os mesmos eleitores. Os Combatentes da Liberdade Económica deverão conseguir cerca de 14% dos votos nas eleições de quarta-feira, segundo o Instituto Sul-Africano de Relações Raciais (IRR) e outras sondagens. E qual é o motivo? “O EFF promete um sonho, um universo em que tudo é acessível a todos”, afirma Gareth van Onselen, do IRR. Mas na realidade, explica o especialista, o partido percebe pouco de economia livre e poderia até piorar o actual cenário na África do Sul.

O crescimento do EFF deve depender dos resultados que o ANC conseguirá nestas eleições, já que, segundo Gareth van Onselen, os Combatentes da Liberdade Económica deverão conquistar entre 5% a 8% de eleitores insatisfeitos com o partido no poder.

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