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Michael Jackson afinal era o lobo mau?

 

 

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“Leaving Neverland”, o documentário que  denuncia repetidos abusos sexuais de Michael Jackson sobre duas crianças. Um filme que é uma história de terror.

Wade Robson, australiano, coreógrafo, hoje com 36 anos, diz ter sido sexualmente abusado por Michael Jackson durante sete anos seguidos, a partir de 1987. Os atos terão decorrido entre os 7 e os 14 anos de idade de Wade. Jimmy Safechuck, norte-americano, programador informático agora com 40 anos, também conheceu o artista em 1987. Relacionou-se intensamente com ele, incluindo sexualmente, segundo afirma, durante quatro anos sucessivos, dos 10 aos seus 14 anos.

Estas revelações de Wade e de Jimmy, que nunca antes admitiram ter sido molestados pelo artista – mentiram, inclusive, para o defender em tribunal -, são o coração, e um coração arrasado, de um novo e controverso documentário que expõe o cantor Michael Jackson como comprovado e pérfido pedófilo.

“Leaving Neverland” (sair de Neverland: referência ao nome do rancho e parque temático do artista na Califórnia, onde terão decorrido muitos dos abusos), realizado pelo inglês Dan Reed, autor de vários filmes sobre terrorismo, estreou no passado fim de semana nos EUA e hoje, sexta-feira, 8 de março, chega ao canal por cabo HBO Portugal.

Esta é uma história da sedução cega da fama e de como essa cegueira se transforma numa história de terror. E um dos horrores é este: a celebridade subjuga a criminalidade e triunfa sempre sobre ela.

Um filme muito difícil de engolir

Com quatro horas de duração, dividido em dois episódios, “Leaving Neverland” não é um filme sobre Michael Jackson; é um filme sobre as suas vítimas, duas delas, concretamente, quando tinham 7 e 10 anos de idade. Apesar de certas debilidades críticas, e também por nunca – nunca – colocar em causa a versão dos dois depoentes, é, como disse a revista Rolling Stone e diz o cartaz do filme, “difícil de visionar, mais difícil ainda de ignorar e impossível de esquecer”.

Não será apenas pelas descrições gráficas de masturbações ou tentativas de coito entre um adulto e crianças, mas também por se tratar de alguém que é tão-só, e incontestavelmente, o maior artista pop do século XX ou mesmo de sempre – uma mega estrela maior do que os Beatles, maior do que Elvis -, desde que o ouvimos pela primeira vez cantar, com os Jacksons 5, a primeira “boys band” negra da história da cultura popular, quando tinha apenas 5 anos de idade, em 1963, e continuamos ininterruptamente a ouvir, mesmo depois de ele ter morrido, em 2009, com 50 anos.

O filme, que está cheio de revelações ferinas e ultrajantes, provocará em quem o vê um efeito secundário de ressonância planetária: percebemos quão grotescamente a fama, ou a nossa adoração pela fama, desculpa, distorce e abre vias para todos os tipos de Mal.

As mães foram cúmplices do Mal

Como pode isto ter acontecido, as crianças não tinham pai nem mãe? Os pais de ambos estão fora do cenário – em ocasiões e circunstâncias distintas, suicidaram-se os dois antes da realização do filme, que foi feito nos três anos anteriores à estreia.

As mães, muito mais presentes, escolheram acreditar que Michael Jackson era um homem-menino solitário, extravagante, sim, estúrdio, mesmo, mas de coração doce, pródigo, extraordinariamente famoso, extraordinariamente bondoso, e não um violador, um pedófilo, um homem sem coração.

É uma das partes mais aflitivas do novo documentário das vítimas de Jackson: a criminosa conivência da família e em concreto das suas mães.

Jackson passou tanto tempo a cortejar as mães quanto os filhos, com prendas luxuosas, viagens, hotéis faustosos, lugares de sonho, a tal ponto que as mulheres não viram nada de errado em deixar os seus filhos menores sem supervisão, filhos que partilharam tudo e a cama, noites seguidas, com um homem adulto que ninguém sabia realmente quem é.

“Ele põe-nos a voar em primeira classe, quando chegamos há uma limusine a esperar por nós, é incrível, é uma vida de ricos e famosos”, diz a mãe de Jimmy Safechuck no documentário, acrescentando com histeria: “Eu conheci o Sean Connery. Isso foi demais para mim. Oh meu Deus, Sean Connery!”. A mulher também gostava muito de ser convidada para Neverland: “Michael tinha uma adega incrível, champanhes, vinhos muito bons, e eu gostava disso. Era como viver num conto de fadas todas as noites”.

Descrições gráficas

“Leaving Neverland” está repleto de descrições gráficas sobre atos amorosos, atos homossexuais e atos pedófilos, isto é, com atração e prática de sexo entre um predador e alguém que ainda não atingiu a puberdade e que é sexualmente insciente.

Apesar de não vermos essas imagens – que existem ou existiram: Jackson tinha inúmeras pequenas câmaras de filmar espalhadas pela casa, assim como vaselina, havia vaselina escondida em todas as divisões da casa, e filmava tudo, mas essas cassetes nunca foram apreendidas -, aquilo que o espetador fica a imaginar após ouvir os depoentes é grotesco.

Introdução à masturbação

A acreditar nos depoentes – e não há razão para acharmos que estão agora a mentir, sobretudo depois de sabermos que aquilo que os levou a revelar os abusos foi o facto de ambos terem sido pais -, os dois, que tinham 7 e 10 anos, foram introduzidos à masturbação por Michael Jackson.

Jimmy diz que lhe aconteceu em Paris, quando ele, a irmã e a mãe foram convidados para acompanhar a digressão do cantor, que na altura tinha 30 anos e lançava o disco “Bad”. Mas a mãe e a irmã dormiam num quarto e ele dormia noutro, sempre na cama com Michael Jackson…

“Tudo começou com ele a explicar-me o que era a masturbação. Falou com naturalidade, como se fosse um truque que eu desconhecia, como uma coisa normal entre amigos, uma coisa que ele dizia que toda a gente fazia. Ele ensinou-me e depois masturbou-se à minha frente até ejacular”, diz Jimmy Safechuck.

O resto já tinha vindo e a escalada ia continuar, confessou Jimmy: beijos de língua, retorcer de mamilos – “ele gostava que lhe apertasse e torcesse os mamilos”, diz -, felácios, ele a chupar o pénis da criança, a criança a chupá-lo a ele. “E isto acontecia de todas as vezes que dormia com ele, era essa a rotina”.

Depois veio a pornografia, “sexo heterossexual normal e anal, bastante hardcore” , e depois as tentativas de sodomia quando as crianças já estavam perto dos 14 anos.

As crianças estavam apaixonadas

Em parte alguma do discurso ouviremos os depoentes dizer que foram maltratados. “A relação não era agressiva nem abusiva, não parecia ter nada de estranho ou anormal”, diz Wade, confessando que Michael Jackson tinha sempre pequenas conversas posteriores sobre Deus e sobre como “aquilo era o amor que Deus queria que nós demonstrássemos um pelo outro”.

Naturalmente, diz Wade e diz Jimmy, as suas mães não sabiam de nada disso – nem pareciam, tão enfeitiçadas que estavam com a sua nova vida luxuosa, sequer desconfiar.

De resto, ouvir as confissões dos dois homens é ouvir a descrição de um namoro e somos levamos a crer que ambos os miúdos estavam apaixonados por Jackson – que também dizia que os amava. E a paixão seria avassaladora: de dia comportavam-se como os melhores amigos, inteiramente inseparáveis, e de noite eram devotados amantes dedicados à carne.

O casamento e o anel

Há outros dois momentos muito perturbantes em “Leaving Neverland”. O primeiro é quando Wade descreve a primeira vez que Jackson lhe impõe um momento de felação. Ele diz só isto: “O pénis ereto de um homem adulto metido na minha boca, a boca de um menino de sete anos”. E disto nada mais é dito, ficando as reticências vivas no meio de uma tenebrosa imensidão…

O outro momento é quando Jimmy diz que ele e Michael Jackson encenaram uma vez uma boda os dois e o artista casou com ele.

“A seguir ele ofereceu-me um anel de noivado. Fomos a uma joalharia e ele deu-me um anel, dizendo à funcionária que era para uma mulher que tinha as mãos pequeninas como as minhas” – e Jimmy a seguir abre uma caixa de joias e mostra, tremente, um anel de ouro com brilhantes que ainda hoje guarda, juntamente com outras joias que o cantor lhe ofereceu em troca de certos atos sexuais que ele não quer outra vez detalhar.

Neverland era como uma armadilha

Apesar de os atos terem decorrido em várias latitudes e muitos quartos de hotel, o rancho e parque de diversões de Neverland, nome roubado à ilha imaginária do conto de Peter Pan em que as crianças não crescem e não se transformam em adultos, esse rancho é central nos abusos.

O espectador fica mesmo com a ideia que a ostentosa propriedade de mil hectares no vale de Los Olivos, na Califórnia, EUA, que Jackson abriu em 1988 e fechou em 2006, com carrossel, brinquedos gigantes, animais exóticos, todo esse colorido complexo foi construído para aliciar crianças, como se de uma desejosa armadilha se tratasse.

Pleno de labirintos e corredores e quartos ocultos, “quartos dentro de outros quartos”, era fácil para Michael Jackson esconder-se em Neverland e camuflar, como camuflou, as suas relações viciosas com as crianças.

Neverland, a propriedade, continua à venda – mas agora, dez anos após a morte do cantor, o preço desceu de 100 milhões de dólares para 30 milhões.

A postura tranquila das vítimas

Ao longo das quatro horas do documentário, os dois depoentes (a gravação das suas entrevistas durou três dias para cada um) raramente perdem a compostura e parecem sempre muito tranquilos ou até relaxados. Não estão zangados, não se exaltam, não falam em vingança, não parecem guardar sequer rancor. Às vezes nota-se um pequeno tremor no queixo ou nas suas vozes, como quando Jimmy mostra o anel de noivado que Jackson lhe ofereceu, ou quando engolem em seco após uma descrição mais gráfica.

Apenas por uma vez Wade chora – é quando projeta uma hipótese: alguém fazer à sua filha bebé, Koa, aquilo que o artista lhe fez: “Se alguém abusasse dela como ele abusou de mim, eu mataria logo essa pessoa”, diz Wade a lacrimejar.

Miúdos defendem-no na acusação de 1993

No meio da edição dos discos “Dangerous” (1991) e “HIStory” (1995), Michael Jackson viveu a primeira acusação de abuso sexual que o levaria aos tribunais. Foi em 1993: os pais de Jordan Chandler, miúdo de 13 anos que viveu três meses com o cantor e dormiu na sua cama em Neverland, apresentam publicamente queixa de abuso sexual de menor. O caso será resolvido antes da leitura da sentença com um acordo extrajudicial de valores não divulgados – Jackson terá pago entre 5 e 25 milhões de dólares de indemnização.

Tanto Wade Robson como Jimmy Safechuck, que mantinham relações sexuais com o cantor desde 1987, defendem-no, assim como as mães deles, também chamadas a depor, mentem em tribunal e dizem que nunca sofrerem nem viram abusos.

Miúdos com ciúmes uns dos outros

Em 1993, o ano das “pernoitas massivas” de crianças no rancho Neverland, Wade e Jimmy já não eram os favoritos de Michael Jackson – Jordan Chandler era o seu novo “namorado” e Macaulay Culkin, o ator de “Sozinho em casa”, então com 13 anos, também já entrara na vida do cantor – e viram no julgamento uma chance de se reaproximarem do artista, o que viria a acontecer. Wade explica que foi isso que o levou a mentir e a defender Michael Jackson.

“Para mim”, diz Wade no documentário, “o inimigo era o outro rapaz (Chandler) e não o Michael”, justificando assim os ciúmes que sentia por ter sido trocado por outro miúdo. Confessará ainda ter ficado excitado por voltar de novo a fazer parte da vida do artista, sentimento que se estendeu à família.

Mais tarde, a mãe de um deles reparará num comportamento padrão: as relações do artista duram um ano, depois ele troca publicamente de miúdo.

Todos reparam que Michael Jackson não era monogâmico e que mantinha relações com vários miúdos ao mesmo tempo.

Ninguém dirá se Michael Jackson era homossexual, heterossexual, bissexual ou se só respondia pela pulsão pedófila.

Wade ainda o defende de novo em 2003

Dez anos após a primeira acusação, a família de outro rapaz de 13 anos, Gavin Arvizo, denuncia Michael Jackson alegando sevícias sexuais. O cantor é algemado e preso, é fotografado nu durante as perícias policiais, mas sai sob fiança passadas umas horas – pagando 3 milhões de dólares de caução.

Neste julgamento de 2003, que durou 18 meses e no qual Michael Jackson foi absolvido de todas as acusações, Wade Robson, que já tinha mais de 20 anos, ainda defende o cantor e, sob juramento, nega novamente ter sido abusado.

“Eu amava-o. Ainda estava apaixonado por ele”, diz um desconcertado Wade no documentário, tentando explicar, e ele próprio compreender, o que o levou a mentir novamente para defender o seu abusador. No final do julgamento, a família Robson foi premiada com uma nova casa.

Jimmy Safechuck, por outro lado, já se recusa a depor, e a mentir, e é ameaçado por Jackson, que lhe diz ter “os melhores advogados do mundo”, lembrando-lhe que ele cometeu perjúrio no julgamento de 1993. Os dois nunca mais se falaram, nunca mais se viram, depois dessa conversa.

Casamento-fachada com a filha de Elvis

Em 1994, ainda debaixo da grande agitação mediática da primeira revelação de abusos pedófilos, Michael Jackson, 36 anos, casa-se de surpresa com a filha de Elvis, Lisa Marie Presley, de 26 anos. O casamento foi visto como uma gigantesca manobra de relações públicas decidida pelos caríssimos conselheiros do cantor.

“Era um casamento só de fachada”, diz Wade no documentário. “É por causa dos fãs, é só a fazer de conta”, diz Joyce, a mãe de Safechuck, citando supostamente o cantor. “Fomos descartados”, diz também ela depois. O casamento durou menos de dois anos e foi Lisa Marie a pedir o divórcio.

O doutor Jekyll e o senhor Hyde

A imagem de um lobo antropomórfico cola-se a Michael Jackson. Como o Lobo Mau do conto do Capuchinho Vermelho – mas o conto primordial do século XVII, da versão singular de Charles Perrant, a versão sem final feliz, ainda sem o caçador que salvará a menina e a avó, versão esta que chegaria só no século XIX com a leitura dos irmãos Grimm.

Mas é noutro conto macabro, no caso uma novela gótica de 1886, que encontramos Michael Jackson com mais acuidade: é em “O estranho caso do doutor Jekyll e do senhor Hyde”, em que Robert Louis Stevenson, com imaginação científica e o bisturi do terror nos expõe a natureza dual de um homem dicotómico que se subdivide em dois, encerrando dentro de si todo o Bem e todo o Mal – enlouquecendo de morte, evidentemente, com isso.

E agora, o que se segue?

É a pergunta que todos fazem depois de verem “Leaving Neverland”: e agora?

No imediato: o canal produtor e distribuidor do filme, HBO, está a ser processado em 100 milhões de dólares pela família (a mãe, Katherine, e os três filhos de Jackson, Prince, de 22 anos, Paris, 21, e Blanket, 17) e pelos cuidadores do seu património. Todos negam, e repelem, a verdade alegada no filme.

No futuro próximo: Dan Reed, o autor do documentário, já havia dito que esperava que “Leaving Neverland” espoletasse a confissão de outros miúdos que foram abusados por Michael Jackson, que nunca – nunca – admitiu os abusos. Entretanto, esta semana, Reed revelou a possibilidade de haver uma sequela, ou mesmo sequelas, deste seu filme, com a produção de novos episódios com novos protagonistas.

Pergunta sem resposta (presentemente e talvez sempre): e agora, teremos que deixar de ouvir, teremos que banir de nós, arrancando com raiz e tudo, toda a música de Michael Jackson para todo o sempre?

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