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Portugal tem primeira afrodescendente como candidata ao Parlamento Europeu

Natural de Guiné-Bissau, Joacine afirma em entrevista à DW que, independentemente de ser eleita ou não, lutará por uma maior visibilidade da comunidade africana e dos afrodescendentes.

Joacine Katar Moreira é a primeira candidata afrodescendente em lugar elegível na lista de um partido político português para as eleições ao Parlamento Europeu, em maio.

Natural da Guiné-Bissau, Joacine é defensora da igualdade e da justiça social. É também a primeira mulher negra que surge como cabeça de lista para as eleições legislativas de outubro deste ano em Portugal, em representação do partido LIVRE.

“Eu acho que necessitamos de nos envolver politicamente, porque envolvendo-nos politicamente envolvemo-nos institucionalmente, envolvemo-nos em termos de legislação. Enquanto nós não participarmos politicamente, é como se nós não existíssemos”, afirma em entrevista à DW África.

Eleição é incógnita

Aos 36 anos, Joacine Moreira está em segundo lugar na lista para as eleições europeias, ao lado de Rui Tavares. Ela explica que houve uma união de fatores que contribuíram para que aceitasse o desafio, para o qual também se mostrou disponível.

As eleições europeias realizam-se entre 23 e 26 de maio de 2019 e as possibilidades de Joacine Moreira vir a ser eleita são uma incógnita.

“Eu não faço a menor ideia se há altas hipóteses ou baixas hipóteses de eu vir a ser eleita”, reconhece. Mas ela assegura que o objetivo da sua candidatura “é ser eleita e entrar ou na assembleia da União Europeia ou na Assembleia [da República] em Portugal”.

Por uma Europa mais diversa

Joacine Moreira defende a necessidade de uma Europa mais humanista, com foco na igualdade, no anti-racismo e na ecologia.

“O meu enfoque nas eleições europeias é uma Europa mais humanista, mais solidária, mais diversa. Isto porque uma Europa mais diversa significa simultaneamente uma Europa que se irá debater com os fascismos, os racismos”, diz.

Mas avisa: não irá posicionar-se enquanto uma candidata unicamente útil para as minorias étnicas. “Eu acho que a Europa inteira e os europeus sabem exatamente que esta é uma época do movimento anti-racista, feminista e pela igualdade, independentemente das nossas origens étnicas”, entende.

No entanto, a candidata sublinha: “enquanto mulher de origem africana, enquanto alguém que tem doutoramento, enquanto uma feminista interseccional, enquanto uma ativista, o meu objetivo é olhar e ser olhada e mostrar [que] nós estamos aqui. Nós existimos”.

Joacine Moreira acredita ter possibilidade de entrar para a Assembleia da República para que, finalmente, os objetivos e interesses das mulheres africanas e afrodescendentes passem a ter alguém que as represente. E lamenta o facto de indivíduos e os militantes pertencentes a minorias étnicas nunca serem colocados em posições elegíveis.

Luta pelas mulheres negra

Joacine Moreira chegou a Portugal aos oito anos de idade. No país, licenciou-se em História Moderna e Contemporânea, com mestrado em Estudos do Desenvolvimento, e é atualmente investigadora no Instituto Universitário de Lisboa.

Ela também é presidente e fundadora do Instituto da Mulher Negra em Portugal (INMUNE), uma entidade não-governamental que, olhando para o passado e para o presente, luta contra a invisibilidade e o silenciamento de mulheres, jovens e meninas negras.

“Olhando para os indivíduos historicamente marginalizados, obviamente que ali era urgente que houvesse um enfoque alto nas mulheres negras, africanas e afrodescendentes, exatamente porque na minha ótica as mulheres africanas foram as mais subalternizadas na época colonial”, diz Joacine Moreira. “E foi exatamente no corpo das mulheres negras que se circunscreveram as maiores violências coloniais”, lembra.

Em busca de justiça social

A ativista anti-racismo defende as causas dos negros e dos afrodescendentes, numa era de ressurgimento de ideologias que se achava estarem completamente ultrapassadas, nomeadamente a ideologia de origem ou de cariz fascista. É uma das mulheres que lutam pela justiça social e pelo reconhecimento dos setores historicamente marginalizados da sociedade portuguesa.

“Ora bem, e há uma naturalização dessa marginalização. Há uma naturalização da invisibilização dos homens e das mulheres afrodescendentes em todos os setores da sociedade”, alerta.

Esta normalização, acrescenta, tem origem na época colonial, em que se hierarquizaram os indivíduos. E o que é necessário mudar na sociedade portuguesa face a essa marginalização, sobretudo de mulheres africanas?

Joacine Moreira responde afirmando que “é urgente eliminar os estereótipos que ainda hoje caracterizam as mulheres de origem africana, enquanto as que têm menores habilitações são olhadas ainda hoje em dia como mulheres que não têm os recursos e as capacidades para estarem em mais nenhuma área que não sejam as áreas onde habitualmente estão”.

“E é urgente que haja uma efetiva valorização do contributo que as mulheres africanas dão há anos à reorganização, à higienização e à economia da sociedade”, complementa.

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